18 de maio de 1973. Era uma sexta-feira, quando a menina Araceli Cabrera
Crespo, de apenas nove anos de idade, filha do eletricista brasileiro
Gabriel Sanches Crespo e da boliviana Lola, foi espancada, torturada,
estuprada e morta. Depois, ela ainda teve parte do corpo, principalmente
o belo rosto, coberto por ácido. O crime aconteceu em Vitória,
capital do Espírito Santo, mas chocou o país inteiro.
E maior impacto causou ao se descobrir que os criminosos eram jovens
rapazes da mais alta elite brasileira.
Naquela
sexta-feira, a pedido da mãe que escreveu um bilhete para a professora
da menina, Araceli saiu mais cedo da escola. A garota deveria entregar
um envelope a um grupo de rapazes, filhos de famílias ricas e
importantes da cidade. O que a menina não sabia era que, no envelope,
havia drogas. E ao chegar ao local indicado pela própria mãe,
o edifício Apolo, ainda em construção, os rapazes
já estariam drogados e atacaram a criança, cometendo os
mais diversos tipos de abusos e violências sexuais. Legistas identificaram
requintes de crueldade na morte de Araceli. “Os bicos dos peitinhos
e a vagina foram lacerados a dentadas. Antes de matá-la, os criminosos
morderam a menina toda”, relatavam os legistas.
O corpo dilacerado da menina permaneceu por mais de
três anos na gaveta do Instituto Médico Legal de Vitória,
no Espírito Santo. Ninguém ousava olhar ou tentar identificar
o corpo ou, ainda, falar sobre o caso. Além de o corpo estar
barbaramente seviciado e desfigurado com ácido, na época
era perigoso se interessar pelo caso. Era mexer com as mais poderosas
famílias do Estado, cujos filhos estavam sendo acusados do hediondo
crime. Duas pessoas que se envolveram com o assunto, morreram em circunstâncias
misteriosas, o que atemorizava ainda mais a população.
Em Vitória, na Praia do Canto, no Jardim dos
Anjos, havia um casarão onde um grupo de filhinhos-de-papai se
reunia para promover orgias regadas a LSD, cocaína e álcool.
Nas orgias, muitas vítimas eram crianças. Entre os viciados,
era conhecida a atração que dois líderes do grupo,
Paulo Constanteen Helal, o Paulinho, e Dante de Brito Michelini, o Dantinho,
sentiam por menininhas. Os dois estavam no grupo de rapazes que assassinaram
Araceli Crespo.
Na época, havia comentários na cidade
de que eles drogavam e violentavam meninas e adolescentes no casarão
e em apartamentos mantidos exclusivamente para festas de embalo. O comércio
de drogas era e é forte naquela cidade. O Bar Franciscano, da
família Michelini, era apontado como um ponto conhecido de tráfico
e consumo livre de drogas, sem que autoridades policiais tomassem qualquer
providência.
Na cidade, muitas pessoas disseram que a diversão
dos jovens Dantinho e Paulinho Helal era rondar os colégios da
cidade em busca de possíveis vítimas, apostando na impunidade
que o dinheiro dos pais podia comprar. Dante Barros Michelini era rico
exportador de café e chegou a ser preso, acusado de tumultuar
o inquérito para livrar o filho da prisão. Constanteen
Helal, pai de Paulinho, além de rico, proprietário de
imóveis, hotéis, fazendas e casas comerciais, era um poderoso
membro da maçonaria capixaba.
Na casa modesta, localizada na Rua São Paulo,
bairro de Fátima, onde Araceli vivia com o pai, a mãe
e o irmão Carlinhos, poucos anos mais velho do que ela, também
vivia o cão vira-lata Radar, xodó da menina, que o criava
desde pequenino. O nome do cachorro foi escolha de Araceli porque ele
parecia um radar, sempre a localizava. No dia em que a menina não
regressou para casa, o pai dela a procurou entre amigos e conhecidos
e até em um bar, onde a menina costumava parar para brincar com
um gato. Mas a pequena não foi encontrada. Sem saber aonde mais
ir, Gabriel distribuiu fotos da filha pelas redações de
jornais na tentativa de que alguém desse alguma notícia.
As buscas prosseguiram no dia seguinte. No colégio, Gabriel ficou
sabendo que a menina tinha saído mais cedo da escola. De acordo
com a professora Marlene Stefanon, Araceli tinha "voltado para
casa perto das 4h30, de acordo com o pedido da mãe, em um bilhete”.
Seis dias depois do desaparecimento de Araceli, um
menino que caçava passarinhos em um terreno baldio perto do Hospital
Infantil Menino Jesus, na Praia Comprida, no Centro de Vitória,
encontrou o corpo despido e desfigurado de Araceli. Começou,
então, a ser tecida uma rede de cumplicidade e corrupção,
que envolveu a polícia e o judiciário e impediu a apuração
do crime e o julgamento dos acusados por uma sociedade silenciada pelo
medo e oprimida pelo abuso de poderosos locais, onde se dizia, havia
o envolvimento do filho de um ministro de Estado e de outros rapazes
importantes.
Dois meses após o aparecimento do corpo da pequena
vítima, o superintendente de Polícia Civil do Espírito
Santo, Gilberto Barros Faria, afirmou que já sabia o nome dos
criminosos. Eram muitos e a população de Vitória
ficaria estarrecida quando fossem anunciados. Barros havia retirado
cabelos de um pente usado por Araceli e do corpo encontrado e levado
para exames em Brasília, confirmando a identidade da menina desaparecida.
Até aquele exame pericial, havia dúvidas
de que era mesmo de Araceli o corpo que apareceu desfigurado no terreno
baldio. Embora o pai já houvesse reconhecido o corpo da filha
por um sinal de nascença, em um dos dedos dos pés, Lola,
ao contrário, negava a evidência. Para confirmar a sua
certeza, um dia, Gabriel levou o cachorro Radar ao IML. O cão
foi direto à geladeira e começou a arranhar furiosamente
a gaveta onde estava o corpo de Araceli.
Já, no dia seguinte ao desaparecimento da filha,
Lola sofreu uma crise nervosa e precisou ser internada no Pronto Socorro
da Santa Casa de Misericórdia. Ainda no início das investigações,
a mãe da menina foi apontada como viciada e traficante de cocaína,
fornecedora da droga para pessoas influentes da cidade e até
como sendo amante de Jorge Michelini, tio de Dantinho. Lola passou,
então, a ser suspeita de ter facilitado a morte da própria
filha. Ela era irmã de traficantes de Santa Cruz de La Sierra
(Bolívia), para onde se mudou assim que o caso tomou proporções
gigantescas. Lola deixou no Brasil o marido e o filho Carlinhos.